ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA
As pessoas religiosas costumam argumentar que não haveria moralidade sem religião, isto é, quem não crê em Deus e não pratica essa fé é, consequentemente, um homem fadado à imoralidade. Sabemos claramente que moralidade e religião são prerrogativas da espécie humana, mas esquecemos muito facilmente que ambas não são uniformes para todos os povos, em todos os lugares e em todas as épocas. O que é moral para uns, de algum lugar, em algum tempo, pode simplesmente ser imoral para outros, em outro lugar e em outro tempo; similarmente, a prática religiosa de um povo, de certa região, em certa época, pode muito bem ser considerada imprópria, ímpia, profana, para um outro povo, de outra região e época. Isso porque a moral diz respeito aos costumes, e não a um elemento intrínseco da suposta natureza humana; tanto quanto a religião nada mais é do que um conjunto de práticas e ritos, repetidos a cada cerimônia, supostamente agradáveis a uma ou mais divindades, ou deuses. Dessa forma, os homens renunciam às suas vontades, necessidades e desejos individuais (egoístas) em nome da moralidade, que teria a função de promover o bem comum; da mesma forma que se renunciou à religiosidade (o religare pessoal) em favor dos dogmas da religião institucional, a que trará a salvação, mas, até aqui, nada disso se comprovou. Portanto, voltando àquela exortação do Cristo aos homens, temos ali, para que ela fosse passível de realização, a necessidade de uniformidade de concepções (morais, religiosas, e outras) em todos os homens, em todos os lugares e épocas. Simplesmente porque, para que haja amor incondicional, é necessário que haja uma tal compreensão desse tipo de amor que não só prescinda do uso da razão, como também evite absolutamente qualquer pensamento racional. Lembremos o que disse Nietzsche: “Qualquer moral, opostamente ao lasser aller, é uma espécie de tirania contra a “natureza” e também contra a “razão””.
Há muito sabemos das deletérias consequências do ódio entre os homens – violência, mortes, guerras –, mas quais seriam realmente as vantagens de nos amarmos incondicionalmente? Bem, se partirmos do ponto em que estamos (nossa sociedade, nosso tempo, etc), dificilmente conseguiríamos elencar algumas vantagens. Na atualidade, individualismo praticamente não deixou espaço para a coletividade, os valores tradicionais demonstraram-se inconsistentes ou impermanentes diante da ambição e da luxúria humanas, as instituições sociopolíticas não cumpriram com seu papel de organizadoras e zeladoras das sociedades etc, etc. Também não será de grande utilidade voltarmos aos dias em que Jesus viveu, durante o período em que o povo hebreu (do qual Jesus fazia parte) se encontrava escravo do Império Romano. No entanto, se voltarmos nosso olhar no tempo, para bem mais longe, poderemos ver claramente nossos grandes erros e como e por quê foram cometidos, e provavelmente encontraremos, em seguida, essas vantagens que procuramos.
Já dissemos anteriormente que moral e religião não são, como pensam alguns, indissociáveis e/ou intrínsecas à suposta natureza humana. Pois bem, elas são, na verdade, construções que foram se fazendo necessárias para a manutenção da vida, não só a individual como a coletiva, não somente entre homens e homens, mas também entre o homem e a Natureza (percebida como força dos deuses). No entanto, o fato de serem necessárias não pressupõe, nem deveria nos induzir a crer, que foram bem fundamentadas ou formadas. Tanto a moral quanto a religião foram criadas e estabelecidas de forma vertical, de cima para baixo.
Pensamos a moral como se fosse uma lei imposta sobre nossas cabeças, como se ela fosse um manual do viver correto, que veio junto com a criação do mundo. Como observa Nietzsche em “Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-moral”: “[...] é a ausência da naturalidade, o fato espantoso de que a contranatureza tem sido venerada com as maiores honras, sob o nome de moral, e ficou suspensa, como uma lei, acima da humanidade”. Porém, voltando no tempo, como proposto, vamos perceber que ela foi meticulosamente elaborada pelos homens que estavam no poder, os quais foram ardilosos em estabelecê-la sempre em seu favor, tomando o cuidado de apresentá-la aos demais homens (os subordinados) como algo que serviria de salvaguarda de suas vidas, de suas posses e de seus valores (e assim se crê). Friedrich Nietzsche foi o primeiro filósofo a se posicionar contra a moral imposta e denunciar suas falhas, vasculhando suas origens. Em “Para além do bem e do mal”, ele nos fala da pré-história como “o período pré-moral da humanidade, no qual “o valor ou não valor de um ato deduzia-se das suas consequências. O ato em si interessava tão pouco como a sua origem” (as considerações nietzschianas sobre “a moral do senhor” e “a moral do escravo” explicam muito bem “a genealogia da moral”). É claro que não pudemos mais admitir isso, pois a experiência (ou evolução) nos levou a prevenir os erros (porém, nem sempre temos sucesso nisso – ou porque não temos como evitar ou porque queremos correr o risco). Com a religião não foi muito diferente. Colocou-se, pairando sobre o mundo, um juiz (criador ou não) de todos os atos humanos; um legislador que, embora seja apresentado como um ser supremo (superior aos homens), uma divindade (entidade destituída dos atributos e das falhas humanas), na verdade, esse “Senhor do Mundo” é demasiadamente humano (e até antropomórfico), pois tem gostos, vontades, caprichos, ira, amor, arrependimento, compaixão, soberba, ciúme etc, etc. No que diz respeito ao cristianismo (religião criada a partir dos preceitos do Cristo, mas não por ele), algo ainda pior foi estabelecido. Para eximir o seu Deus-Criador da culpa de ter feito um mundo imperfeito (cheio de defeitos), impregnou-se nos seus seguidores a ideia do primeiro homem (ou casal) já pecador, gerando, consequentemente, toda uma humanidade também pecadora (nascida no e do pecado). Esse artifício inescrupuloso por si só é a base da manutenção ad infinitum do próprio cristianismo, pois também nele se estabeleceu a fórmula para a salvação de toda a humanidade.
Ora, o que temos, então? Se a moral foi criada para e pelos homens no poder, para ludibriar os dominados, e a religião, sobre a imposição de que, não importa o que façamos (a não ser a aceitação do Cristo como redentor, Filho de Deus) somos, desde a nossa concepção, pecadores, logo se vê que não sobra muito de dignidade para todos nós. Como encontramos na obra do filósofo Arthur Schopenhauer: “Por que há de se orgulhar o homem? Sua concepção é uma culpa; o nascimento, um castigo; a vida, uma labuta; a morte, uma necessidade!” (Cap. VIII, “Acerca da Ética”, em Parerga e Paralipomena). Pouco depois, Nietzsche seria ainda mais incisivo ao escrever em “O Anticristo”: “O pecado, digamo-lo uma vez mais, essa forma de poluição da humanidade por excelência, foi inventado para tornar impossível a ciência, a cultura, toda a elevação e toda a nobreza do homem”. Então, voltemos a considerar aquela exortação do Nazareno: “Amai-vos uns aos outros!”. Como poderemos amar incondicionalmente pessoas tão indignas quanto nós? Pessoas que se revestem de moralismo, para dizer aos outros o que e como devem fazer as coisas, agir na coletividade, mas são as primeiras a usurpar os bens alheios, a cobiçar a mulher (ou homem) do próximo, a mentir para levar vantagem, a matar seu semelhante etc, etc; seres que se corromperam ainda no alvorecer da Criação, que desobedeceram a Deus no princípio (e desrespeitam seus pais nos dias de hoje), que desfiguram o rosto para fazer de conta que jejuam, que são semelhantes a sepulcros caiados, que vão às Igrejas para dizer “Sim, Senhor!” e sabe lá Deus o que fazem ao sair de lá, quando estão pelas ruas ou entre quatro paredes. Somos capazes apenas de amar aqueles para com os quais temos algum interesse. Nossos familiares (pais, filhos, avós), caso precisemos realmente deles; aquele homem ou aquela mulher que é objeto do nosso desejo carnal ou da nossa ambição material. Quando vemos um pobre, um desvalidos, um doente ou miserável, não ocorre em nenhum de nós esse amor incondicional pregado pelo Cristo; mais corriqueiramente há de nos ocorrer o asco, a comiseração, o medo de sermos acometido pela mesma má sorte, talvez, qualquer outro sentimento ou emoção, menos amor.
Nos dias atuais, por toda parte, há sobejos exemplos da discórdia entre os homens, a despeito de todos os tratados religiosos e filosóficos, de todos os acordos diplomáticos entre as nações e do Contrato Social, que rege o comportamento dos homens em sociedade. Podemos até argumentar que, de certa forma, o tempo da barbárie voltou, mas, na verdade, ele nunca nos deixou de vez. Os moralistas causam tanto mal aos seus concidadãos quanto os imoralistas; os religiosos são tão violentos com os prosélitos de outras religiões quanto os não-religiosos são com os de qualquer credo. Estamos todos acuados pelo inimigo que somos nós mesmos e prontos a nos vingar daqueles que nos causam danos, embora em nossas orações não cansemos de repetir “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam” (Mateus: 6,12). O perdão, da mesma forma que o amor incondicional, também só se efetiva quando está ausente a razão ou a reflexão racional. O que sabemos é perdoar da boca para fora, e não no coração. Por isso mesmo, a prática cristã parece ter sido vaticinada ainda pelos Cristo com estas palavras: “Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens!” (ainda em referência àquela passagem, citada acima, em Isaías).
Que erros vimos no passado que agora são suficientes para perceber com toda a sua amplitude o presente, as nossas pequenas vidas humanas, que semelhante a um barqueiro em meio à tormenta, clama por um instante de calmaria, para retomar a sua habilidade como condutor do seu barco, ou seja, resgatar o que ele presunçosamente ousava chamar de dignidade. Vale aqui transcrever algumas considerações de Arthur Schopenhauer a esse respeito: “[...] também me parece que a um ser de vontade tão pecaminosa, espírito tão limitado, corpo tão frágil e volúvel como é o homem, o conceito de dignidade apenas pode ser aplicado ironicamente” (da mesma obra acima citada). Não entendemos bem o que é o amor – sentimos algo por alguém, mas não sabemos nem imaginar como deve ser o sentimento desse alguém por nós; amamos nossos filhos (quase incondicionalmente), sem saber se somos amados por eles; amamos a Deus (mas nem de longe esse amor é incondicional) somente porque acreditamos nele e tememos aborrecê-lo (eis o que há de mais condicionado). Vivemos aqui e ali burlando a moralidade que dizemos praticar e que exigimos das demais pessoas, mas não achamos nenhum pecado nisso. É bem verdade que nos pretendemos seres da moralidade e da religião, mas, acima de tudo, somos seres da razão. Porém, se as palavras de Paulo (este, sim, o verdadeiro fundador do cristianismo), em sua Primeira Epístola aos Coríntios, quando diz que “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus”, puderem ser aqui usadas como um reforço às palavras do próprio Cristo, então já não haverá dúvidas sobre o porquê daquela exortação jamais encontrar sua efetivação em nós.







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