quarta-feira, 28 de maio de 2014

HOMENS SANTOS NA TERRA SANTA

A ESPERANÇA DE PAZ NO TERRITÓRIO DA INTOLERÂNCIA
Quanto mais eu estudo e acompanho a trajetória da Igreja católica ao longo desses quase vinte séculos, mais eu comprovo o seu distanciamento dos ensinamentos do Cristo, embora os emotivos (religiosos) e os incautos (que só acreditam no Deus cristão por temor de irem ao Inferno) insistam em ver relação e proximidade. Tudo me parece muito teatral, litúrgico, cerimonial, mas quase nada há de fidedigno ou semelhante ao que viveu e pregou aquele que pretendem que seja o fundador do cristianismo – Jesus Cristo. A bem dos anais históricos, o verdadeiro “fundador”, ou seja, aquele que estabeleceu não só as bases, mas também foi, com maestria, o divulgador da nascente religião cristã, chamava-se Paulo (anteriormente, Saulo, o grande general romano, perseguidor dos cristãos). Alguns estudiosos da Bíblia acreditam que o apóstolo Paulo foi “a escolha de Deus” para substituir Judas Iscariotes como o décimo segundo apóstolo (seja lá o que isso signifique de bom ou de mau). O fato é que esse verdadeiro “apóstolo”, ou seja, difusor, propagador do pensamento do Cristo, e não apenas um discípulo, ou seguidor do Cristo enquanto vivo, como, por exemplo, Pedro (que o negou por três vezes), ou Tomé (que recusava-se a acreditar em sua ressurreição sem a prova ocular), é o responsável por esse “império religioso” de quase dois mil anos.
Voltando ao Cristo, gostaria de lembrar que não são poucos os eventos em que ele deixa claro a sua intenção de desobedecer as leis judaicas – e realmente as desobedece –, como no episódio da cura num sábado (Lc. 13:10-17) e naquele em que evitou o apedrejamento de Maria Madalena (Jo.8:3-5). Entretanto, ele também é categórico em afirmar que não se deve julgar que ele tenha vindo para “revogar a lei”, senão para “cumpri-la” (Mt. 5:17). A meu ver, esse é um forte indício de que já havia ali (como, talvez, sempre tenha havido entre o que se prega e o que se pratica) um grande distanciamento entre o que era a “Lei dos Profetas” (aquilo que propriamente recomendava religião judaica) e o que os sacerdotes interpretavam dela e realmente praticavam. Algo que ouso denunciar que ocorre semelhantemente com o cristianismo hoje praticado em relação ao que fora ensinado pelo Cristo. E, por favor, não me venham falar “da mensagem de paz”, da “caridade cristã”, “dos trabalhos em prol dos pobres e necessitados”, e blá-blá-blá, blá-blá-blá, pois isso tudo também é encontrado em todas as demais religiões, como fundamentos da sua fé. Estou falando de coisas “questionáveis” e “visíveis” (para não dizer, palpáveis). Bem, antes de enveredar pelo mote deste artigo – a viagem do Papa Francisco à Terra Santa –, pedirei um pouco mais de paciência aos gentis leitores deste blog, para que seja melhor explicado a todos o que é essa que chamam de “Terra Santa” e um pouco da história conflituosa entre israelenses (judeus) e palestinos (muçulmanos). Pois bem! Terra Santa é o nome bonito que eles dão a uma região que vive em conflito há séculos, devido a divergências religiosas, causadas não apenas pela morte, mas também pela própria vida do Cristo. O que eles chamam de “Terra Santa” é basicamente a região que compreende a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e o Estado de Israel. “Na Cisjordânia encontram-se os locais que são sagrados tanto para o judaísmo, como para o islamismo e o cristianismo, principalmente após a saída dos judeus do Egito, para a conquista de Canaã sob a liderança de Moisés e seu sucessor, Josué. A Igreja da Natividade fica em Belém e foi construída segundo a tradição no local onde Jesus nasceu. Jerusalém, a cidade mais sagrada para o judaísmo, o lugar onde Jesus pregou e acabou sendo morto, tendo ressuscitado, também foi o local da ascensão do profeta do Islão, Maomé. Durante as cruzadas, cristãos europeus procuraram ganhar o controle do território sobre os mouros. Nunca houve, em mais de 5 mil anos de história, um território tão disputado e tão conflagrado como esse. Para os judeus, ela é a Eretz Israel, a terra dada por Jeová ao Povo Eleito, tendo Jerusalém, cujo terreno original foi tomado dos filisteus pelo rei Davi, como sua eterna capital (por volta do ano 1.000 a.C.). Ela é a Terra da Promissão, o local que Deus apontou a Moisés como o lar definitivo dos judeus logo que eles conseguiram escapar do Egito, onde eram mantidos como escravos pelo faraó. Em 2 mil anos de exílio, os judeus sempre constituíram minorias em outros países, sendo constantemente discriminados e perseguidos. O cristianismo, após tornar-se a religião oficial do Império romano, contribuiu bastante para isso, retirando a culpa da crucificação de Jesus que pesava sobre Roma e atribuindo-a aos judeus, que passaram a ser vistos como os "assassinos de Cristo". Não é difícil imaginar o que lhes aconteceu durante a Idade Média ou a Contra-Reforma, quando a Igreja católica imperava. Entre os judeus, desenvolveu-se um movimento nacionalista que se orientava pela ideia de recriar uma nação judaica no território de sua pátria ancestral. O movimento recebeu o nome de sionismo, que se origina de Sion, a antiga designação de uma colina de Jerusalém que passou a denominar esta mesma cidade bem como a própria Israel.
Saltando na História, chegamos ao final da Segunda Guerra Mundial, quando vamos perceber as sequelas deixadas pela crueldade perpetrada pelo nazismo contra mais de seis milhões de judeus, que foram mortos nos campos de concentração. Isso, por si só, chamou a atenção de certas organizações de ajuda humanitária, que logo se propuseram a resgatar os judeus sobreviventes dos campos de concentração, embarcando-os clandestinamente para a palestina (na época, uma concessão britânica). Nessa ocasião, a opinião pública mundial sensibilizada apoiou maciçamente a ideia de se criar um Estado judeu na Palestina. “Com o fim da Segunda Guerra, as organizações judaicas passaram a resgatar os que escaparam do holocausto nazista e a embarcá-los clandestinamente para Israel”. “Em 1947, em assembleia realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, foi deliberada a divisão da Palestina em dois Estados, o Estado Judeu e o Estado Árabe. A 14 de maio de 1948, seis horas antes do término oficial do Mandato britânico, David Ben Gurion, que seria o primeiro governante israelense, leu a declaração de Independência de Israel, fundando assim oficialmente o estado de Israel. Os Estados Unidos e a União Soviética, as potências do pós-guerra, reconheceram rapidamente o novo Estado. No entanto, o Estado árabe prenunciado pela ONU nessa partilha não foi estabelecido e os palestinos lutam até hoje para ter o seu Estado. Esse episódio foi denominado Questão Palestina. “A revolta dos países árabes foi imediata à criação do Estado de Israel. Isso culminou no primeiro conflito árabe-israelense. Com o apoio militar e financeiro recebido de outras nações, Israel venceu a guerra e dominou mais da metade do território reservado aos árabes no plano de divisão da ONU. Com a derrota da guerra de 1948, cerca de meio milhão de palestinos foram obrigados a deixar a terra em que viviam para se refugiar em países vizinhos. “Expulsos de suas terras, os palestinos eram maltratados, inclusive nos países árabes. Somente a Jordânia permitiu a integração dos palestinos em sua sociedade, mas sendo vigiados permanentemente. Nos outros países eles passaram a viver em acampamentos para refugiados, com a ajuda da ONU. Desde então, o Oriente Médio tornou-se uma das regiões mais conflituosas do globo, cenário de consecutivos conflitos extremistas entre judeus e árabes.” O Estado Palestino ainda não conseguiu ser efetivamente criado. De meados do século 20 até o início do século 21, a história de Israel e do Oriente Médio é marcada por tantos problemas e conflitos que constitui uma nova epopeia, quase tão longa quanto a dos 5 mil anos anteriores.
No cenário atual, o papa Francisco fez sua visita de três dias à Terra Santa, onde como bom diplomata, afirmou o direito de Israel "a existir e a ter paz e segurança no interior das fronteiras, internacionalmente reconhecidas", mas também o do povo palestino "de ter uma pátria soberana e independente", e, como líder da Igreja católica, apelou para o reconhecimento "do caráter sagrado e universal" da cidade de Jerusalém e do seu "patrimônio cultural e religioso", que fazem dela "local de peregrinação para os fiéis das três religiões monoteístas" – o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Quebrando o protocolo (como recorrentemente tem feito), Francisco fez uma paragem não programada na cidade de Belém junto ao muro que separa a Cisjordânia de Israel. O papa saiu do seu carro e durante alguns minutos postou-se de pé junto ao muro, num gesto improvisado, antes se dirigir para a Praça da Manjedoura, onde celebraria uma missa, após o encontro com o presidente palestino, Mahmud Abbas. O Jornal Nacional (Globo) assim se pronunciou sobre a dificuldade dos fiéis verem o papa: “Com a segurança muito reforçada, os fiéis ficaram bem longe do Papa Francisco. Jerusalém amanheceu vazia e silenciosa. Protegida por oito mil homens. Com tanta segurança, ver o Papa foi quase missão impossível”. Ora, um “representante de Deus” na Terra não deveria ter necessidade de tantos cuidados e de tanta proteção policial. O papa Francisco mal pôde ser visto por aqueles que gastaram dinheiro e se esforçaram tanto para vê-lo na Terra Santa. Se isso se restringe unicamente às questões de segurança internacional, há que se perguntar qual a diferença então de um homem santo e um profano qualquer (presidente, diplomata, celebridade etc, etc). Ao que parece, tudo fica mesmo no nível político-diplomático, pois no religioso mesmo, quase nada! É verdade que havia razões “reais” para tanta proteção do “homem santo: “Depois de uma série de ameaças, a polícia israelense descobriu um plano de judeus ortodoxos radicais para obstruir o caminho do Papa e impedir que ele chegasse ao local onde Jesus teria feito a Última Ceia, num prédio que também é sagrado para os judeus. Três suspeitos foram detidos e carros foram guinchados” (concluiu o JN). Em seu último dia de visita, “Francisco convocou cristãos, muçulmanos e judeus a trabalharem juntos pela paz, e culpou os que usam o nome de Deus para praticar a violência”.
Missão cumprida! Resta saber se, daqui para frente, haverá mesmo algum vestígio de paz entre os praticantes dessas religiões, depois de tanta boa vontade e diplomacia dos “homens de bem”, ou se toda a rivalidade e intolerância que até aqui se viu na Terra Santa não tardará em por a perder tais esforços, levando mesmo à destruição dos homens e dos lugares considerados sagrados dali. Se assim for, não haverá como manter a esperança ou a fé naquelas palavras do Cristo: “Destruí este templo e eu em três dias o reconstruirei!” (João 2:13-22). Pesquisa:(http://www.brasilescola.com/historiag/a-criacao-estado-israel.htm) e outros sites que foram usados de forma editada.

terça-feira, 13 de maio de 2014

AMAI-VOS UNS AOS OUTROS

ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA

Essa exortação, feita pelo homem que mais influenciou os diversos segmentos do pensamento ocidental, embora repetida à exaustão num sem-número de igrejas católicas e dissidentes, ao que parece, não é exequível. Isso porque há uma enorme distância entre o que é desejado e o que é praticado e, acima de tudo, uma total incompreensão da necessidade e das consequências benéficas da prática desse tipo de amor incondicional. Em outras palavras: todos querem ser amados (com esse tipo de amor), mas não encontram em si mesmos motivações para amar o próximo incondicionalmente – somente amam aqueles que representam o que lhes agrada –, e a grande maioria das pessoas só conhece as más consequências de não se saber escolher a quem amar – como, então, amar a qualquer um? Assim, embora boa parte da população ocidental se diga seguidora dos ensinamentos do Cristo, essa exortação encontrada no evangelho de João (15,12), bem como muitas outras com o mesmo teor, que aqui poderiam ser citadas à exaustão, somente comprovam uma triste verdade, que pode ser resumida em uma outra passagem bíblica, também pronunciada por Jesus, em referência a uma passagem do Antigo Testamento: “Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim” (Isaias: 19,13).

As pessoas religiosas costumam argumentar que não haveria moralidade sem religião, isto é, quem não crê em Deus e não pratica essa fé é, consequentemente, um homem fadado à imoralidade. Sabemos claramente que moralidade e religião são prerrogativas da espécie humana, mas esquecemos muito facilmente que ambas não são uniformes para todos os povos, em todos os lugares e em todas as épocas. O que é moral para uns, de algum lugar, em algum tempo, pode simplesmente ser imoral para outros, em outro lugar e em outro tempo; similarmente, a prática religiosa de um povo, de certa região, em certa época, pode muito bem ser considerada imprópria, ímpia, profana, para um outro povo, de outra região e época. Isso porque a moral diz respeito aos costumes, e não a um elemento intrínseco da suposta natureza humana; tanto quanto a religião nada mais é do que um conjunto de práticas e ritos, repetidos a cada cerimônia, supostamente agradáveis a uma ou mais divindades, ou deuses. Dessa forma, os homens renunciam às suas vontades, necessidades e desejos individuais (egoístas) em nome da moralidade, que teria a função de promover o bem comum; da mesma forma que se renunciou à religiosidade (o religare pessoal) em favor dos dogmas da religião institucional, a que trará a salvação, mas, até aqui, nada disso se comprovou. Portanto, voltando àquela exortação do Cristo aos homens, temos ali, para que ela fosse passível de realização, a necessidade de uniformidade de concepções (morais, religiosas, e outras) em todos os homens, em todos os lugares e épocas. Simplesmente porque, para que haja amor incondicional, é necessário que haja uma tal compreensão desse tipo de amor que não só prescinda do uso da razão, como também evite absolutamente qualquer pensamento racional. Lembremos o que disse Nietzsche: “Qualquer moral, opostamente ao lasser aller, é uma espécie de tirania contra a “natureza” e também contra a “razão””.

Há muito sabemos das deletérias consequências do ódio entre os homens – violência, mortes, guerras –, mas quais seriam realmente as vantagens de nos amarmos incondicionalmente? Bem, se partirmos do ponto em que estamos (nossa sociedade, nosso tempo, etc), dificilmente conseguiríamos elencar algumas vantagens. Na atualidade, individualismo praticamente não deixou espaço para a coletividade, os valores tradicionais demonstraram-se inconsistentes ou impermanentes diante da ambição e da luxúria humanas, as instituições sociopolíticas não cumpriram com seu papel de organizadoras e zeladoras das sociedades etc, etc. Também não será de grande utilidade voltarmos aos dias em que Jesus viveu, durante o período em que o povo hebreu (do qual Jesus fazia parte) se encontrava escravo do Império Romano. No entanto, se voltarmos nosso olhar no tempo, para bem mais longe, poderemos ver claramente nossos grandes erros e como e por quê foram cometidos, e provavelmente encontraremos, em seguida, essas vantagens que procuramos.

Já dissemos anteriormente que moral e religião não são, como pensam alguns, indissociáveis e/ou intrínsecas à suposta natureza humana. Pois bem, elas são, na verdade, construções que foram se fazendo necessárias para a manutenção da vida, não só a individual como a coletiva, não somente entre homens e homens, mas também entre o homem e a Natureza (percebida como força dos deuses). No entanto, o fato de serem necessárias não pressupõe, nem deveria nos induzir a crer, que foram bem fundamentadas ou formadas. Tanto a moral quanto a religião foram criadas e estabelecidas de forma vertical, de cima para baixo.
Pensamos a moral como se fosse uma lei imposta sobre nossas cabeças, como se ela fosse um manual do viver correto, que veio junto com a criação do mundo. Como observa Nietzsche em “Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-moral”: “[...] é a ausência da naturalidade, o fato espantoso de que a contranatureza tem sido venerada com as maiores honras, sob o nome de moral, e ficou suspensa, como uma lei, acima da humanidade”. Porém, voltando no tempo, como proposto, vamos perceber que ela foi meticulosamente elaborada pelos homens que estavam no poder, os quais foram ardilosos em estabelecê-la sempre em seu favor, tomando o cuidado de apresentá-la aos demais homens (os subordinados) como algo que serviria de salvaguarda de suas vidas, de suas posses e de seus valores (e assim se crê). Friedrich Nietzsche foi o primeiro filósofo a se posicionar contra a moral imposta e denunciar suas falhas, vasculhando suas origens. Em “Para além do bem e do mal”, ele nos fala da pré-história como “o período pré-moral da humanidade, no qual “o valor ou não valor de um ato deduzia-se das suas consequências. O ato em si interessava tão pouco como a sua origem” (as considerações nietzschianas sobre “a moral do senhor” e “a moral do escravo” explicam muito bem “a genealogia da moral”). É claro que não pudemos mais admitir isso, pois a experiência (ou evolução) nos levou a prevenir os erros (porém, nem sempre temos sucesso nisso – ou porque não temos como evitar ou porque queremos correr o risco). Com a religião não foi muito diferente. Colocou-se, pairando sobre o mundo, um juiz (criador ou não) de todos os atos humanos; um legislador que, embora seja apresentado como um ser supremo (superior aos homens), uma divindade (entidade destituída dos atributos e das falhas humanas), na verdade, esse “Senhor do Mundo” é demasiadamente humano (e até antropomórfico), pois tem gostos, vontades, caprichos, ira, amor, arrependimento, compaixão, soberba, ciúme etc, etc. No que diz respeito ao cristianismo (religião criada a partir dos preceitos do Cristo, mas não por ele), algo ainda pior foi estabelecido. Para eximir o seu Deus-Criador da culpa de ter feito um mundo imperfeito (cheio de defeitos), impregnou-se nos seus seguidores a ideia do primeiro homem (ou casal) já pecador, gerando, consequentemente, toda uma humanidade também pecadora (nascida no e do pecado). Esse artifício inescrupuloso por si só é a base da manutenção ad infinitum do próprio cristianismo, pois também nele se estabeleceu a fórmula para a salvação de toda a humanidade.

Ora, o que temos, então? Se a moral foi criada para e pelos homens no poder, para ludibriar os dominados, e a religião, sobre a imposição de que, não importa o que façamos (a não ser a aceitação do Cristo como redentor, Filho de Deus) somos, desde a nossa concepção, pecadores, logo se vê que não sobra muito de dignidade para todos nós. Como encontramos na obra do filósofo Arthur Schopenhauer: “Por que há de se orgulhar o homem? Sua concepção é uma culpa; o nascimento, um castigo; a vida, uma labuta; a morte, uma necessidade!” (Cap. VIII, “Acerca da Ética”, em Parerga e Paralipomena). Pouco depois, Nietzsche seria ainda mais incisivo ao escrever em “O Anticristo”: “O pecado, digamo-lo uma vez mais, essa forma de poluição da humanidade por excelência, foi inventado para tornar impossível a ciência, a cultura, toda a elevação e toda a nobreza do homem”. Então, voltemos a considerar aquela exortação do Nazareno: “Amai-vos uns aos outros!”. Como poderemos amar incondicionalmente pessoas tão indignas quanto nós? Pessoas que se revestem de moralismo, para dizer aos outros o que e como devem fazer as coisas, agir na coletividade, mas são as primeiras a usurpar os bens alheios, a cobiçar a mulher (ou homem) do próximo, a mentir para levar vantagem, a matar seu semelhante etc, etc; seres que se corromperam ainda no alvorecer da Criação, que desobedeceram a Deus no princípio (e desrespeitam seus pais nos dias de hoje), que desfiguram o rosto para fazer de conta que jejuam, que são semelhantes a sepulcros caiados, que vão às Igrejas para dizer “Sim, Senhor!” e sabe lá Deus o que fazem ao sair de lá, quando estão pelas ruas ou entre quatro paredes. Somos capazes apenas de amar aqueles para com os quais temos algum interesse. Nossos familiares (pais, filhos, avós), caso precisemos realmente deles; aquele homem ou aquela mulher que é objeto do nosso desejo carnal ou da nossa ambição material. Quando vemos um pobre, um desvalidos, um doente ou miserável, não ocorre em nenhum de nós esse amor incondicional pregado pelo Cristo; mais corriqueiramente há de nos ocorrer o asco, a comiseração, o medo de sermos acometido pela mesma má sorte, talvez, qualquer outro sentimento ou emoção, menos amor.

Nos dias atuais, por toda parte, há sobejos exemplos da discórdia entre os homens, a despeito de todos os tratados religiosos e filosóficos, de todos os acordos diplomáticos entre as nações e do Contrato Social, que rege o comportamento dos homens em sociedade. Podemos até argumentar que, de certa forma, o tempo da barbárie voltou, mas, na verdade, ele nunca nos deixou de vez. Os moralistas causam tanto mal aos seus concidadãos quanto os imoralistas; os religiosos são tão violentos com os prosélitos de outras religiões quanto os não-religiosos são com os de qualquer credo. Estamos todos acuados pelo inimigo que somos nós mesmos e prontos a nos vingar daqueles que nos causam danos, embora em nossas orações não cansemos de repetir “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam” (Mateus: 6,12). O perdão, da mesma forma que o amor incondicional, também só se efetiva quando está ausente a razão ou a reflexão racional. O que sabemos é perdoar da boca para fora, e não no coração. Por isso mesmo, a prática cristã parece ter sido vaticinada ainda pelos Cristo com estas palavras: “Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens!” (ainda em referência àquela passagem, citada acima, em Isaías).

Que erros vimos no passado que agora são suficientes para perceber com toda a sua amplitude o presente, as nossas pequenas vidas humanas, que semelhante a um barqueiro em meio à tormenta, clama por um instante de calmaria, para retomar a sua habilidade como condutor do seu barco, ou seja, resgatar o que ele presunçosamente ousava chamar de dignidade. Vale aqui transcrever algumas considerações de Arthur Schopenhauer a esse respeito: “[...] também me parece que a um ser de vontade tão pecaminosa, espírito tão limitado, corpo tão frágil e volúvel como é o homem, o conceito de dignidade apenas pode ser aplicado ironicamente” (da mesma obra acima citada). Não entendemos bem o que é o amor – sentimos algo por alguém, mas não sabemos nem imaginar como deve ser o sentimento desse alguém por nós; amamos nossos filhos (quase incondicionalmente), sem saber se somos amados por eles; amamos a Deus (mas nem de longe esse amor é incondicional) somente porque acreditamos nele e tememos aborrecê-lo (eis o que há de mais condicionado). Vivemos aqui e ali burlando a moralidade que dizemos praticar e que exigimos das demais pessoas, mas não achamos nenhum pecado nisso. É bem verdade que nos pretendemos seres da moralidade e da religião, mas, acima de tudo, somos seres da razão. Porém, se as palavras de Paulo (este, sim, o verdadeiro fundador do cristianismo), em sua Primeira Epístola aos Coríntios, quando diz que “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus”, puderem ser aqui usadas como um reforço às palavras do próprio Cristo, então já não haverá dúvidas sobre o porquê daquela exortação jamais encontrar sua efetivação em nós.

sábado, 10 de maio de 2014

A MÚSICA BRASILEIRA ESTÁ DE LUTO

Ele se dizia “o primeiro rapper brasileiro” com o samba “Deixa isso pra lá”, e, aos 75 de idade, teve que nos deixar, deixando também de luto a música brasileira. Na manhã desta quinta-feira (08/05), Jair Rodrigues teve um fulminante infarto do miocárdio em sua casa, em Cotia, na grande São Paulo, pegando de surpresa familiares e fãs. É claro que o artista e sua obra são imortais, mas o sorriso solto e a alegria inebriante de Jair Rodrigues não serão páreo para o tempo inclemente que tudo devora. Ficaremos, pois, com as lembranças da sua versatilidade e irreverência e com os registros fono e videográficos que ele nos deixou. Nascido em Igarapava, São Paulo, a 6 de fevereiro de 1939, Jair Rodrigues iniciou sua carreira como músico em meados dos anos de 1950, não sem antes passar por profissões que jamais indicariam o sucesso que ele iria ser no futuro. Ele foi engraxate, mecânico e pedreiro, antes de se tornar clooner de uma banda, em São Carlos. Foi como calouro num programa da Rádio Cultura, onde conquistou o primeiro lugar, que Jair foi descoberto musicalmente, mas somente na década de 1960, após uma parceria com a talentosa Elis Regina, que também já nos deixou, no programa “O Fino da Bossa”, na TV Record, que sua estrela realmente começou a brilhar intensamente. Não demorou muito para Jair Rodrigues despontar no Festival da Canção (1966), quando conseguiu empatar em primeiro lugar com a canção “A Banda”, de Chico Buarque, outro ilustre da música brasileira, defendo a canção “Disparada”, de autoria do não menos brilhante, Geraldo Vandré, e Théo Barros.
O cantor deu crias musicais, ele era pai de Jair Oliveira (o Jairzinho, ex-integrante do grupo “Balão Mágico”, da década de 1980) e Luciana Mello, que também chegou a participar da turma criada pela Rede Globo, já perto de sua extinção. Se o pai é esse talento todo que o Brasil não vai cansar de aplaudir, mesmo ausente em carne e osso, o mesmo não se pode dizer dos filhos. Jair Oliveira é dono de uma voz, para dizer o mínimo, irritante e sem graça (brilho) e a irmã, Luciana Mello, não chega a ser recomendável, como opção musical. Talvez o fato de estarem na música seja apenas uma conseqüência direta da carreira extraordinária do pai e jamais a confirmação de um pedigree, pois, no caso de ambos, aquela máxima “filho de peixe, peixinho é”, praticamente não faz sentido.
Voltando a quem tinha talento mesmo, não faltaram fãs e amigos no velório do grande Jair, confirmando o que já se sabia, que ele era uma pessoa muito querida e que todos nós vamos sentir muito a falta. De minha parte, o que tenho a dizer é “Querido Jair, não vamos jamais deixar você pra lá, pois você estará sempre presente aqui, em nossos corações, e no seio da música brasileira, também!”.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A GENTE LÊ POR AQUI

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